sexta-feira, 25 de março de 2011

BOLO DE CARIMÃ

Delícias da Infância

Antiguidades
“Quando eu era menina
bem pequena,
em nossa casa,
certos dias da semana
se fazia um bolo
assado na panela
com um testo de borralho em cima.
Era um bolo econômico,
como tudo, antigamente.
Pesado, grosso, pastoso.
(Por sinal que muito ruim.)
Eu era menina em crescimento.
Gulosa,
abria os olhos para aquele bolo
que me parecia tão bom
e tão gostoso.
A gente mandona lá de casa
cortava aquele bolo
com importância.
Com atenção. Seriamente.
Eu presente.
Com vontade de comer o bolo todo.
Era só olhos e boca e desejo
daquele bolo inteiro.
Minha irmã mais velha
governava. Regrava.
Me dava uma fatia,
tão fina, tão delgada...
E fatias iguais às outras manas.
E que ninguém pedisse mais!
E o bolo inteiro.
quase intangível,
se guardava bem guardado,
com cuidado,
num armário, alto, fechado,
impossível...”
Cora Coralina
Qual a criança nordestina, criada no interior, que nunca se deliciou com alfenim, geleia de coco, pirulito, pé-de-moleque, puxa-puxa, cavaco chinês, farinha de castanha, rapadura, mel de engenho, sequilho e raivinha?

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Dou um doce pra quem responder que não. Essas eram as nossas guloseimas.
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Na minha casa, quando criança, sobremesa e lanche eram sinônimos de frutas. Todas. Mamão, banana, laranja, jaca, sapoti, caju, graviola, pinha, jabuticaba, manga, pitomba, siriguela, cajá, carambola e por aí vai. Doces? Industrializado só a goiabada cascão – que hoje não é mais igual à de antigamente – os outros eram compotas feitas em casa: Jaca, goiaba, banana, mamão, coco verde, laranja, caju... Cada uma melhor do que a outra.
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Sobremesas propriamente ditas, só o pudim de leite e manjar de coco com calda de ameixa que mamãe fazia para o nosso deleite.
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Até as raivinhas – a quem chamávamos de alegria – e os sequilhos, tivemos o privilégio de ter como vizinha dona Maria, que fazia no forno de barro construído no seu quintal, os melhores e mais saborosos sequilhos e raivinhas que já comi na vida, cujo perfume inundava o nosso quintal a cada fornada. 
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Refrigerante? Só se estivesse doente e com “fastio”. Aí você tinha direito a um “Guaraná Champagne Antarctica”, aquele da garrafinha, que quando abria chiava e suas bolhinhas faziam cócegas no nariz, acompanhado de biscoitos Maria. Se não, era suco e mais suco, sempre feito da fruta e na hora. Nada de poupa congelada.
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Bolos? Só nos finais de semana, sempre aos sábados à tarde, lá estávamos nós para ajudar a bater, com uma batedeira manual ou colher de pau. Além do bolo simples de ovos, mamãe fazia bolo de batata doce, de macaxeira, pé de moleque e o campeão na preferência, o bolo de carimã – também conhecido como bolo de mandioca mole – a quem apelidamos de “Inácio”, pois a briga de quem ia lamber a tigela era grande e mamãe nos indagava:
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- Nunca viu comer não, Inácio?
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Numa alusão a Inácio, seu amigo de infância que, segundo ela, era esfomeado.
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Eis a receita de uma das melhores delícias da minha infância.

Bolo de Carimã (Puba ou Mandioca Mole)

Ingredientes
½ kg de carimã
5 ovos inteiros
2 xícaras de açúcar
200g de manteiga sem sal em temperatura ambiente
1 ¹/2xícaras de leite de coco (feito de 1 coco seco)
1 colher de chá de sal
1 colher de sopa de fermento em pó
1/5 de xícara de chá forte de erva doce ou cravo (opcional)


Modo de fazer
Reserve ¹/2 xícara de leite de coco
Bata a manteiga com o açúcar até formar um creme leve e esbranquiçado.
Sempre batendo, vá acrescentando os ovos, um a um.
Vá adicionando, alternadamente, o carimã e 1 xícara de leite de coco, acrescente o sal e por último o fermento.

Antes de colocar no forno, regue com um pouco daquele leite de coco que você reservou e repita o procedimento 3 ou 4 vezes enquanto o bolo estiver assando.

Leve ao forno baixo, pré-aquecido, por cerca de 1 ¹/2 a 2 horas, em uma placa ou forma redonda, untada e polvilhada e asse até que fique dourado e que, enfiando um palito saia limpo.




20 de fevereiro de 2011






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