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terça-feira, 22 de setembro de 2020

Primavera...

                                                

   “Levai-me aonde quiserdes! – aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira”.

Cecília Meireles

 

Enquanto há vida, a finitude é uma coisa lógica.

Tudo acaba.

Quando a primavera se instala a vida se renova e tudo se transforma.

Quanto a vida, tudo que existe é de uma precisão absoluta: o instante de nascer, o instante de morrer, e um instante de viver aquilo que pode valer por uma vida inteira.

Assim como a primavera a cada estação, a vida me transformou a cada dia.

Hoje sou o fruto maduro da vida que semeie a cada batalha vencida, a cada decepção vivida, a cada amizade cativada, a cada vitória conquistada.

Aprendi a me cuidar.

Aprendi a ser só, embora rodeada de poucos e bons amigos, afinal somos a medida certa de quem nos aceita e respeita.

Continuo a acreditar no amor, nas pessoas e na vida. Continuo a lutar por aquilo que acredito. Ainda erro ou escolho erradamente. Ainda tenho muito a evoluir.

Depois...

Tudo acaba.

 

“Sou uma céptica que crê em tudo, uma desiludida cheia de ilusões, uma revoltada que aceita, sorridente, todo o mal da vida, uma indiferente a transbordar de ternura. Grave e metódica até à mania, atenta a todas as subtilezas dum raciocínio claro e lúcido, não deixo, no entanto, de ser uma espécie de D. Quixote fêmea a combater moinhos de vento, quimérica e fantástica, sempre enganada e sempre a pedir novas mentiras à vida, num dar de mim própria que não acaba, que não desfalece, que não cansa”

Florbela Espanca

domingo, 5 de julho de 2020

Lucinha, 26 anos...

"Não me basta ser: eu quero o transbordar de tudo, o desassombro que toda margem desconhece.
Não me basta morar: quero ser habitado por quem ao destino desobedece. 
Não me basta viver: quero a vida como febre, o amor como lume e água. 
No final, saberás: o que se ama não regressa. 
O que se vive não começa. 
E o sonho nunca tem pressa”
 Mia Couto

As perdas das nossas vidas nos ensinam o valor do tempo. Pela palavra não dita. Pela compreensão não exercida. Pelo gesto de carinho adiado. Pelo convite abandonado sem resposta.

Mas o tempo - senhor da razão - quando deixa de ser exercício do desperdício e começa a se transformar num bem maior, nos ensina a arte da boa e sadia convivência. Nos ensina a conviver com a saudade e preencher as ausências com as lembranças do amor dado e recebido, que continua intenso e infindo vida afora.

Hoje, dia em que você faz 26 anos, lhe digo filha minha, que a vida - por respeito - requer licença.

Tenha menos medo e mais esperança.

Ame mais.

Sonhe com os pés na realidade e tente ultrapassar os reverses da vida com força e coragem.

Aprenda a ouvir com o coração e com humildade, respeitando as opiniões contrárias.

Valorize o que é belo na sua singeleza, ouça o que faz algum sentido, respeite a sua vida.

Valorize o seu dia, enxergue em você as qualidades que você possui, e assim descobrirá o quanto você é amada e especial.

Com todo o meu amor.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Aos namorados, enamorados...


Todo casal deveria ler.

“Por mais que o poder e o dinheiro tenham conquistado uma ótima posição no ranking das virtudes, o amor ainda lidera com folga.
Tudo o que todos querem é amar.
Encontrar alguém que faça bater forte o coração e justifique loucuras. Que nos faça entrar em transe, cair de quatro, babar na gravata. Que nos faça revirar os olhos, rir à toa, cantarolar dentro de um ônibus lotado.
Tem algum médico aí??
Depois que acaba esta paixão retumbante, sobra o que? O amor.
Mas não o amor mistificado, que muitos julgam ter o poder de fazer levitar. O que sobra é o amor que todos conhecemos, o sentimento que temos por mãe, pai, irmão, filho. É tudo o mesmo amor, só que entre amantes existe sexo.
Não existem vários tipos de amor, assim como não existem três tipos de saudades, quatro de ódio seis espécies de inveja. O amor é único, como qualquer sentimento, seja ele destinado a familiares, ao cônjuge ou a Deus.
A diferença é que, como entre marido e mulher não há laços de sangue, a sedução tem que ser ininterrupta. Por não haver nenhuma garantia de durabilidade, qualquer alteração no tom de voz nos fragiliza, e de cobrança em cobrança acabamos por sepultar uma relação que poderia ser eterna.
Casaram. Te amo pra lá, te amo pra cá. Lindo, mas insustentável.
O sucesso de um casamento exige mais do que declarações românticas. Entre duas pessoas que resolvem dividir o mesmo teto, tem que haver muito mais do que amor, e às vezes nem necessita de um amor tão intenso. É preciso que haja, antes de mais nada, respeito.
Agressões zero.
Disposição para ouvir argumentos alheios. Alguma paciência. Amor, só, não basta. Não pode haver competição. Nem comparações.
Tem que ter jogo de cintura para acatar regras que não foram previamente combinadas. Tem que haver bom humor para enfrentar imprevistos, acessos de carência, infantilidades.
Tem que saber levar. Amar, só, é pouco. Tem que haver inteligência. Um cérebro programado para enfrentar tensões pré-menstruais, rejeições, demissões inesperadas, contas pra pagar.
Tem que ter disciplina para educar filhos, dar exemplo, não gritar. Tem que ter um bom psiquiatra. Não adianta, apenas, amar.
Entre casais que se unem visando à longevidade do matrimônio tem que haver um pouco de silêncio, amigos de infância, vida própria, um tempo pra cada um.
Tem que haver confiança. Uma certa camaradagem, às vezes fingir que não viu, fazer de conta que não escutou. É preciso entender que união não significa, necessariamente, fusão.
E que amar, "solamente", não basta.
Entre homens e mulheres que acham que o amor é só poesia, tem que haver discernimento, pé no chão, racionalidade. Tem que saber que o amor pode ser bom, pode durar para sempre, mas que sozinho não dá conta do recado. O amor é grande, mas não é dois.
É preciso convocar uma turma de sentimentos para amparar esse amor que carrega o ônus da onipotência.
O amor até pode nos bastar, mas ele próprio não se basta."
Arthur da Távola

quinta-feira, 21 de maio de 2020

As idades de Léo

“Uma vez tendo amado nunca mais se deixa de amar. Amar e viver são verbos sem pretérito. Não perdemos nunca os que amamos. O amor está para além dessa contabilidade”.
Mia Couto
Léo aos 6.6


Quero dizer porque te amo
Por Leonardo Sodré

Havíamos conversado muito naquela noite de domingo. Eu estava ávido pela sua presença, desejando ver o seu rosto, sentir o seu cheiro, pegar em suas mãos... Queria senti-la, abraçá-la e partilhar com ela nossas saudades e os bons momentos que vivemos durante alguns poucos anos. É verdade que já não éramos mais os mesmos. Muitos problemas tinham acontecido. Muitos males rondaram nossa relação e confesso já ter começado a perder a esperança de uma reconciliação. Mas, enquanto sobravam insatisfações de ambos os lados, o misterioso amor não cessava de apalpar nossos corações e de, certeiramente, colocar dúvidas na tez de nossa realidade. O infinito amor agia.
Despedimo-nos com um abraço de paixão e com compromissos firmados em torno de um futuro melhor. ‘Meu Deus! Exultei. Ajude-me a ser como prometi, não deixe que eu não seja o que eu não quero ser’, roguei. De imediato pareceu-me ver a figura de Paulo de Tarso ensinando: “Eu não faço o bem que quero, mas o mal que eu não quereria”. Roguei novamente. ‘Meu Deus, me livre do mal, do desamor, não deixe que eu a decepcione nunca mais’. Eu acho que ele me ouviu.
Chego ao quarto e vou ver um filme pensando no meu amor. De pronto uma cena onde um rapaz diz a namorada: “Quero dizer porque te amo”. Ora, pensei, jamais disse ao meu amor porque a amava. Mas eu quero dizer. Não basta o olhar? Não. Não bastam as atitudes? Acho que não. Não basta apenas dizer: eu te amo? Para mim não, me obriguei.
O que eu queria dizer a ela neste momento é que não importa os cinco minutos os 50 anos que possamos estar olhando um para o outro. Quero dizer a ela que a amo porque sem ela eu não conheceria o amor. Que tenho sua imagem no meu coração dia após dia, que não me importaria em morrer tendo apenas como legado essa mesma imagem. Quero dizer a ela que a amo porque encaro o tempo das nossas presenças do jeito que ela me amou. E que precisamos apenas de um pouco de tempo. É tudo o que precisamos.
Quero dizer porque te amo porque vejo sua ‘fotografia’ espalhada em tudo o que toco. No chão que ando, na mesa, em todo canto. Sua presença é tão importante que o seu sentir é o meu sentir e magicamente estamos tão próximos que as distâncias se encurtam. Quero dizer porque te amo! Sim, quero dizer! Gritar e espalhar as razões do meu amor. Da sua constante presença, do seu olhar, enfim dessa simbiose cósmica que nos une, apesar de termos enfrentado tantos problemas.
Quero dizer porque te amo de tantas formas e de tantas maneiras que sinto falta de não ser poeta e de poder dizer poeticamente ou justificar que o meu coração lhe pertence e que minha vida é totalmente sua. Por isso te amo. Pertenço-te.

domingo, 10 de maio de 2020

SER MÃE

 “A única eternidade que nos é certa: continuarmos em nossos filhos como a flor que morre na imortalidade da semente”.

Mia Couto


Ser mãe é, acima de tudo, um ato de amor desmedido e continuado. E enquanto amor haverá sempre lugar para alegria, tristeza, saúde, doença, cuidado, carinho, atenção, perdão, renuncia, abnegação e, sobretudo, compreensão.
Tive os filhos que Deus me permitiu.
Mas eles não são meus, são filhos do mundo e para o mundo.
Fui mãe jovem.  Fui mãe na plena idade. Fui mãe na maturidade.
Pari, amamentei – não existe coisa mais sublime que amamentar um filho - cuidei, ensinei e amei a cada um deles, sem a exigência de um retorno.
Tenho a consciência tranquila do dever cumprido: a semente foi germinada.
Que venham mais netos, muitos...
A você mãe que é mãe, mãe que é pai e mãe, pai que é mãe e pai, a todas as mães, presentes e ausentes, minha homenagem carinhosa e o desejo que a alegria desse dia seja igual a todos os dias do ano.
Um feliz dia das mães!



segunda-feira, 23 de março de 2020

Apesar de...

“... uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra pra frente.”
Clarice Lispector

E se, -  apesar de - o momento em que hoje vivemos, seja o que estava nos faltando para que pudéssemos, enfim, aprender o quão importante e imprescindível sermos solidários, nos ensinando com o medo que a dor é a grande mestra dessa nossa instável e curta estadia?

E se, -  apesar de - o momento em que hoje vivemos, seja a nossa única e última oportunidade para que possamos com a dor da solidão aprendermos a sermos fraternos, a perdoar e amarmos uns aos outros?

E se, -  apesar de - o momento em que hoje vivemos, seja a lição que nos faltava para descobrimos o valor da vida, da saúde, da paz, da harmonia entre nós, enquanto seres humanos, habitantes de um planeta chamado terra, e por nós tão massacrado?

E se, - apesar de – o momento em que hoje vivemos, seja para que - depois dessa tempestade - nos tornemos seres melhores num mundo novo, conscientes da nossa pequenez?

A minha esperança é que essa travessia nos faça pessoas melhores em um mundo melhor, para vivermos o novo, juntos.

segunda-feira, 9 de março de 2020

MAMÃE, PARABÉNS!

 
Mamãe e sua trupe
Regina, Lúcia, Eu, Katherine e Joaquim

Ela era a gatinha manhosa para o meu avô, a gata seca para os seus irmãos e pretinha para o meu pai. Por aí já dá pra sentir como uma pessoa que se chama Ody carregou por toda a vida o apelido de Miminha. Só podia ser muito manhosa mesmo!.

Esta é minha mãe, que nasceu em nove de março, e nós que fazemos parte da sua ninhada, estamos festejando os seus 86 anos.

Durante sua vida foi a primeira dançarina da trupe de papai. Quando cansava passava o posto para as filhas e assim as nossas festas varavam o dia entrando pela noite.

Como éramos festeiros!

A você mamãe, nossa declaração de amor, desejando que Deus lhe mantenha conosco por muitos anos com saúde, paz e alegria.

Hoje, dia em que comemoramos o seu aniversário, se vivo estivesse, papai com certeza iria homenagear o amor da sua vida, a sua pretinha, cantando...

Tu és, divina e graciosa estátua majestosa
Do amor, por Deus esculturada
E formada com o ardor,
Da alma da mais linda flor, de mais ativo olor
E que na vida é a preferida pelo beija-flor.

Se Deus lhe fora tão clemente aqui neste oriente de luz
Formada numa tela deslumbrante e bela,
Teu coração, junto ao meu lanceado
Pregado e crucificado sobre a rosa cruz do arfante peito teu

Tu és a forma ideal, estátua magistral
Oh alma perenal, do meu primeiro amor, sublime amor.

Tu és de Deus a soberana flor
Tu és de Deus a criação de todo o coração
Cintilas um amor
O riso, a fé, a dor em sândalos olentes cheios de sabor
Em vozes tão dolentes quanto um sonho em flor
És láctea estrela, és mãe da realeza
És tudo enfim que tem de belo,
Todo o resplendor da santa natureza
Perdão se ouso confessar-te, eu hei de sempre amar-te
Oh flor! Meu peito não resiste,
Ah, meu Deus o quanto é triste,
A incerteza de um amor que mais me faz penar
Em esperar em conduzir-te um dia aos pés do altar
Jurar, aos pés do onipotente
Em versos comoventes de luz,
E receber a unção da tua gratidão,
Depois de remir, teus desejos
Em nuvens de beijos hei de envolver-te
Até o meu padecer, de todo fenecer”

A você, o nosso amor.

sexta-feira, 6 de março de 2020

À Nós Mulheres...


CANÇÃO NA PLENITUDE 

"Não tenho mais os olhos de menina nem corpo adolescente, e a pele translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura agrandada pelos anos e o peso dos fardos bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)
O que te posso dar é mais que tudo o que perdi: 
dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir quando em outros tempos choraria, 
busca te agradar quando antigamente quereria apenas ser amada. 
Posso dar-te muito mais do que beleza e juventude agora: esses dourados anos me ensinaram a amar melhor, com mais paciência e não menos ardor, a entender-te se precisas, a aguardar-te quando vais, a dar-te regaço de amante e colo de amiga, e sobretudo força — que vem do aprendizado. 
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável cujas marés — mesmo se fogem — retornam cujas correntes ocultas não levam destroços mas o sonho interminável das sereias."
Lya Luft

O texto extraído do livro "Secreta Mirada", Editora Mandarim - São Paulo, 1997, pág. 151. Lya Luft

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

O que somos?

 "... eu senti que já o conhecia, apesar de nunca o ter visto antes. Era como se nos conhecêssemos desde há muito tempo, desde uma outra vida…"

Não sei.

Mas sabemos - sentindo e enxergando com o coração- que aquela pessoa muito provavelmente já fez parte de nós e que a partir dali continuará fazendo.
Embora tão diferentes, estamos ligados pelas afinidades. E o estar juntos nos faz sentir inexplicavelmente bem. 
Seguros e completos. 
Abertos e plenos. 
Compreendendo e aceitando, inclusive os nossos defeitos. Ajudando-nos a superar desafios, ensinando a amar e querer bem com confiança, respeito e companheirismo.
Pacientemente. 
E eu, na minha pequenês, diria:  somos companheiros de alma e “comparsas” na vida.

E assim seremos...


terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Aquele Abraço

“Que a vida ensine que tão ou mais difícil do que ter razão, é saber tê-la.
Que o abraço abrace.
Que o perdão perdoe.
Que tudo vire verbo e verbe.
Verde. Como a esperança.”
 Artur da Távola

Sou pegajosa. Adoro abraçar, beijar e dizer que amo aos meus filhos, netos, irmãos, a minha mãe e aos meus amigos.

Puxei a papai que adorava um abraço e um beijo e, com esses gestos nos transmitia inúmeros bons sentimentos, como o cuidado, a proteção no carinho demonstrando, sobretudo, o seu amor por nós, os seus filhos.

Assim fui criada e assim estou a viver. É a minha forma de dar e demonstrar o amor aos que me rodeiam. O importante não é somente dar e receber, mas pedir quando necessário. Às vezes nos sentimos precisando de colo, nada como um abraço amigo para nos acalmar e confortar.

Esse meu jeito de ser já me colocou em algumas situações - desde a repulsa pelo carinho dado à falta de liberdade em abraçar plenamente, de corpo e alma, determinadas criaturas -.
Isso me inquieta por dentro e me quieta por fora. Me fazendo lembrar de Clarice, a Lispector, quando diz: “Quando estou muito quieta por fora, é que dentro de mim alguma coisa grita e eu preciso me ouvir”.

E dentro de mim ouço que no abraço se cala desentendimentos, se conforta desespero e se reafirma sentimentos de amor e amizade, pelo gesto em si, sem que uma só palavra seja pronunciada.

Por isso lhes digo: Adoro dar, mas também amo receber.

Então não perca tempo.

Abrace e seja abraçado.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

OS DONOS DO MUNDO

 
Brasília ainda era uma jovem cidade, com apenas 20 anos, quando lá aprendi a dirigir e tirei a minha carteira de motorista.

Aprendi e acostumei-me, desde então, a não buzinar – a não ser quando realmente é necessário -, a manobrar olhando pelos retrovisores, a fazer baliza, a respeitar a faixa de pedestre, a respeitar a sinalização vertical e horizontal, as faixas de rolamento, e, principalmente, respeitar ao próximo, seja ele motorista ou pedestre. Olhe que lá se vão mais de 30 anos...

O Governo Federal poderia, aquela época, ter feito de Brasília um exemplo a ser seguido pelo resto do país no que diz respeito à civilidade e educação no trânsito. Vindo de Brasília são poucos os exemplos que a cidade nos dar – tratou de nos “deseducar” e o trânsito se tornou cada vez pior. Nem mesmo Brasília foi poupada nesse quesito.

Os motoristas?

Ah, os motoristas... Alguns acham que são os donos do mundo.

Assisto de camarote todos os dias, no estacionamento que possuo na rua Princesa Isabel, centro de Natal, ao desrespeito às Leis de transito, a arrogância e a prepotência dos motoristas – desde o caminhoneiro ao motorista do carrão importado – que transformam num caos o trânsito já combalido do centro da cidade.

É uma luta diária e até agora inglória, contra a incivilidade dos que não respeitam a precária sinalização existente e se acham os donos do pedaço. Não respeitam a nada e nem a ninguém.

Obstruem um único acesso para cadeirantes que existe nas proximidades.
Estacionam em cima das calçadas.
Estacionam em local de carga e descarga.
Estacionam nos locais destinados aos táxis.
Estacionam em faixa amarela.
Param entre duas placas que – se eles não fossem analfabetos de trânsito e ignorantes de cidadania – poderiam enxergar que ali está sinalizado “Proibido Parar e Estacionar” fechando a entrada e saída de veículos do estacionamento.

Embora já tendo sido feita, através de requerimento a Secretaria de Mobilidade Urbana (Semob), a solicitação da presença, diária e sistemática, de uma autoridade de trânsito naquela área, nada foi feito. Os amarelinhos, como são chamados, amarelaram de vez e não aparecem.

Fui várias vezes à garagem daquele órgão municipal, que ironicamente fica a 100 metros do nosso estabelecimento, para solicitar ajuda. Sempre alegam que primeiro temos que ligar para o telefone 156, que não funciona por falta de pagamento, segundo os próprios funcionários, ficando, então, todos os que têm seus direitos infringidos a mercê dos motoristas infratores das Leis de trânsito, que se acham os verdadeiros donos do mundo.

Acham-se. Mas não são. São apenas pobres mortais com seus carrões. Ignorantes, mal educados, analfabetos e assassinos em potencial. Quanto maior o carro mais adjetivados eles são.

26 de maio de 2011

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

O meu Natal em Natal


Finalmente, 16 anos depois, eu estava de volta a minha terra. 
E, desta vez, para ficar!
Embora tenha participado de todos os Natais da nossa família durante o período que morei fora, aquele ano seria diferente, a nossa festa seria na minha casa.
Pense numa felicidade! 
Sou festeira por natureza, sempre adorei casa cheia. E, mesmo a minha casa ainda estando em final de construção, não seria empecilho para a realização da primeira reunião da CARVALHADA, afinal a edícula estava pronta e lá iria ser realizada a festança.
Na casa dos meus pais, sempre fizemos o Natal participativo. Elaborávamos um cardápio e cada filho levava um prato e a sua bebida. Nada mais democrático. Era só festejar. Mas, dessa vez seria diferente, não que eu fosse bancar tudo sozinha. Muito pelo contrário. Fomos eu e minhas irmãs às compras e fizemos a nossa ceia, dos petiscos as sobremesas, tudo dividido irmãmente; dos custos ao trabalho.
Mas, estava faltando uma árvore natalina e eu, sempre com a imaginação a mil, olhei em volta e vi que no terreno da frente haviam feito uma queimada, estava cheio de plantas secas. Não me fiz de rogada, pulei o muro do terreno com um facão na mão e cortei um galho grande de uns dois metros de altura. Fixei-o num vaso, enfeitei com bolas e luzes, tudo bem rústico. Nunca vi coisa mais linda e singela... Agora tínhamos onde colocar os nossos presentes.
Naquele tempo, ainda tínhamos papai, que era uma festa personificada. E o nosso Natal terminou com o dia amanhecendo.
Pense numa mulher feliz!

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

FESTAS DO INTERIOR

Nossa Senhora do Ó - Padroeira de Nísia Floresta

“Meu São José dai-me licença
Para o Pastoril dançar,
Viemos para adorar
Jesus nasceu para nos salvar.”

Na minha pequena e querida Nísia Floresta, as festividades de final de ano começavam com a festa da Padroeira, Nossa Senhora do Ó, e terminavam em 06 de janeiro, dia de Santos Reis, com a queimada da Lapinha.

“Boa noite, meus senhores todos
Boa noite, senhoras também;
Somos pastoras
Pastorinhas belas
Que alegremente
Vamos a Belém.”

Naquela época, eu e minhas irmãs, estávamos sempre metidas em todas as atividades culturais que tínhamos oportunidade de participar.
Nos intervalos, para desespero de mamãe, vivíamos de bicicleta a subir e descer ladeiras, fugindo do papafigo, usando nossos tênis congas como freios, ou nos nossos famosos patinetes, construídos com madeira e rodinhas de rolimã, com os quais subíamos a rua empurrando e descíamos numa corrida alucinada. Ou, ainda, indo fazer pescarias no Rio da Bica para brincar de cozinhado com os peixinhos de “água de roupa suja”, como ela costumava dizer.
Mas, para seu sossego, as noites, sempre estreladas, quando não havia ensaio, ficávamos brincando de cantiga de roda no meio da praça, contando histórias, brincando de anel, de tica ou de academia.
Na fase artística-cultural da minha infância, fui anjinho de procissão e com orgulho coroei a padroeira. Fui ginasta e acrobata de circo, atriz e produtora teatral. Fui noiva de quadrilha e contra mestra do cordão azul do nosso pastoril.

“Estrela do Norte,
Cruzeiro do Sul.
Vamos dar um viva,
Ao cordão azul!
Sou a contramestra
Do cordão azul
O meu partido
Eu sei dominar
Com minhas danças
Minhas cantorias
Senhores todos
Queiram desculpar.”

Hoje lembro com saudades da infância feliz que tive e orgulhosa de ter feito parte dos folguedos natalinos da minha terra, como o pastoril, onde a emoção do povo é revelada através da ação dramática da Natividade.


quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

MINHA VELHA MOCINHA



Todos os anos no dia oito de Dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, lembro-me de Mocinha. Pernambucana de Itapissuma. Devota - como a maioria dos pernambucanos católicos - da Virgem da Conceição. Não havia um oito de Dezembro em que ela não subisse o Morro da Conceição em Casa Amarela, no Recife, para pagar suas promessas.

Senhora da Conceição
Minha Mãe
Minha Rainha
Dai-me a vossa proteção
Minha querida madrinha
Vela acesa, subo o morro
Pra pagar minha promessa
Vou vestir azul e branco
Pra pagar eu tenho pressa
Hoje minha mãe querida
Faço essa louvação
Com o povo rendo graças
À Virgem da Conceição

Mocinha trabalhou em minha casa por 11 anos e durante esse tempo quem tinha vez lá em casa era 'a menina'. Era assim que ela chamava a minha filha primogênita Milena - tudo era 'pra menina' e 'da menina' -, e ai de quem metesse a mão em alguma coisa da 'menina'.
Monossilábica na maioria das vezes, mas quando abria a boca e desembestava a falar ninguém entendia nada. Eu, com o tempo, aprendi a traduzir o seu palavreado.
Ela era uma mulher feita, cinco anos mais velha do que eu, diabética, hipertensa e com uma úlcera gástrica das brabas, doenças que me davam autoridade de fazê-la entender que precisava se cuidar e motivo das nossas brigas. Sempre que passava mal eu lhe inquiria:
 - Mocinha, o que você comeu?
 E ela me respondia com a voz sumida.
 - Naaaada...
 - Nada o quê, Mocinha?
 E ela confessava:
 - Toucinho frito com farinha...
Dava vontade de acabar de matar. E lá ia eu fazer chá, comprar remédios e, por algumas vezes, levá-la nas últimas para um pronto-socorro.
Parecia um peixe morrendo pela boca. Algumas vezes eu flagrava Mocinha comendo o que não podia. Então, eu voava feito um carcará para tirar-lhe das mãos ou da boca as suas delícias proibidas.
Nós nos respeitávamos. Quando ela amanhecia de lundum eu fazia de conta que nem via. Afora a falta de cuidado com sua saúde e só gostar de comer o que não devia, era uma pessoa boníssima, adorava minha filha - o que para mim era tudo -, e cozinhava muito bem.
Minha velha Mocinha, de quem tenho saudades e até hoje guardo comigo a imagem da Virgem da Conceição que ela me presenteou quando da nossa despedida.
Pense num choro!

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